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terça-feira, agosto 25, 2026

Dois novos casos de remissão do HIV são anunciados no Rio

Casos apresentados na Conferência Internacional da Aids elevaram para 13 o número de pessoas que permaneceram sem vírus detectável após transplantes de células-tronco.

 

Dois novos casos de remissão do HIV após transplantes de células-tronco foram apresentados nesta semana durante a 26ª Conferência Internacional da Aids, realizada no Rio de Janeiro.

Os pacientes permaneceram sem níveis detectáveis do vírus após interromperem, sob acompanhamento médico, o tratamento com medicamentos antirretrovirais.

Com os novos relatos, chegou a 13 o número de casos de remissão do HIV registrados após esse tipo de procedimento. Entretanto, pesquisadores evitam afirmar que houve cura definitiva, porque ainda não é possível garantir que o vírus não voltará a ser detectado no futuro.

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Quem são os dois pacientes

Um dos casos envolve um homem identificado pelos pesquisadores como “paciente de Kansas City”, nos Estados Unidos.

Ele descobriu aos 21 anos que vivia com HIV e também recebeu o diagnóstico de leucemia mieloide aguda, um câncer que afeta a formação das células sanguíneas.

Para tratar a leucemia, o paciente passou por um transplante de células-tronco hematopoiéticas. Essas células ficam na medula óssea e dão origem aos componentes do sangue, incluindo células importantes do sistema imunológico.

Após o procedimento, ele interrompeu os antirretrovirais em fevereiro de 2025, sempre sob monitoramento médico. Quatorze meses depois, os exames ainda não haviam identificado vírus capaz de se multiplicar.

O segundo caso foi chamado de “paciente de Essen”, na Alemanha. Ele vivia com dois tipos de HIV e também com o vírus da hepatite B.

O homem permaneceu sem sinais de retomada da infecção pelo HIV durante 12 meses após a suspensão dos antirretrovirais. No entanto, a interrupção do tratamento provocou o retorno da hepatite B, o que demonstra a necessidade de acompanhamento rigoroso nesses casos.

Como o transplante pode impedir o HIV de infectar novas células

O HIV ataca principalmente os linfócitos T CD4+, células essenciais para a coordenação das defesas do organismo.

Para entrar nessas células, o vírus utiliza o receptor CD4 e outros correceptores presentes em sua superfície. Um dos principais é chamado CCR5.

Os doadores escolhidos para os dois transplantes apresentavam uma mutação genética rara conhecida como CCR5 delta 32. Quando herdada nas duas cópias do gene, essa alteração modifica ou impede a formação adequada do receptor utilizado pelo HIV como uma de suas principais portas de entrada.

Com o transplante, as células sanguíneas e imunológicas do paciente são gradualmente substituídas pelas células originadas do doador.

Assim, os novos linfócitos podem se tornar resistentes às variantes do HIV que dependem do CCR5 para iniciar a infecção.

Transplante também reduz células que escondem o vírus

Os antirretrovirais impedem que o HIV se multiplique, mas não eliminam completamente o chamado reservatório viral.

Esse reservatório é formado por células que guardam material genético do HIV em estado inativo. Caso o tratamento seja interrompido, essas células podem voltar a produzir o vírus.

Durante um transplante de células-tronco, o paciente passa por um tratamento intenso para destruir ou reduzir a medula óssea doente antes de receber as células do doador.

Esse processo pode eliminar grande parte das células infectadas. Ao mesmo tempo, as novas células resistentes ao HIV passam a reconstruir o sistema imunológico.

Pesquisadores acreditam que a combinação entre a redução dos reservatórios, a substituição do sistema imune e a resistência genética do doador explica os casos de remissão.

Por que os cientistas ainda evitam falar em cura definitiva

Apesar da ausência de vírus detectável, os pesquisadores classificam os resultados como remissão do HIV.

Isso ocorre porque pequenas quantidades do vírus podem permanecer escondidas em tecidos e órgãos, abaixo da capacidade de detecção dos exames atuais.

Além disso, já houve situações em que pacientes permaneceram meses ou anos sem carga viral e apresentaram retorno da infecção posteriormente.

Por esse motivo, os participantes serão submetidos a testes frequentes. O paciente de Kansas City, por exemplo, deverá realizar exames mensais para verificar se o HIV continua indetectável.

Tratamento não serve para a maioria das pessoas com HIV

O transplante de células-tronco não é considerado uma terapia comum contra o HIV.

O procedimento foi realizado porque os pacientes também enfrentavam doenças graves do sangue, como leucemia, que justificavam os riscos do transplante.

A técnica pode provocar infecções, rejeição das células transplantadas, lesões em órgãos e a doença do enxerto contra o hospedeiro. Também existe risco de morte relacionado ao tratamento.

Além disso, é difícil encontrar um doador compatível que também possua duas cópias da mutação CCR5 delta 32. Essa característica genética é rara e aparece com maior frequência em populações do norte da Europa.

Portanto, médicos não recomendam o transplante para pessoas que controlam o HIV com antirretrovirais e não possuem indicação para tratar um câncer ou outra doença hematológica grave.

Casos ajudam no desenvolvimento de terapias mais seguras

Embora o transplante não possa ser aplicado em larga escala, cada novo caso ajuda os pesquisadores a compreender como o organismo pode controlar o HIV sem o uso contínuo de medicamentos.

Os estudos podem orientar tratamentos menos agressivos, como edição genética, anticorpos de ação prolongada, vacinas terapêuticas e estratégias destinadas a modificar o receptor CCR5.

Os cientistas também estudam casos de remissão em que os doadores não apresentavam a mutação completa. Isso pode indicar que outros fatores, além da resistência genética, contribuem para a eliminação ou o controle dos reservatórios virais.

Primeiro caso foi registrado em 2007

O primeiro paciente reconhecido como curado do HIV foi Timothy Ray Brown, conhecido como “paciente de Berlim”.

Ele recebeu um transplante de células-tronco em 2007 para tratar uma leucemia. O doador possuía a mutação CCR5 delta 32.

Depois do procedimento, Brown permaneceu sem retorno detectável do HIV até morrer, em 2020, em decorrência da leucemia.

Desde então, outros casos semelhantes foram documentados. Em abril de 2026, pesquisadores publicaram o caso do “paciente de Oslo”, que permaneceu em remissão prolongada após receber células do irmão, também portador da mutação em duas cópias.

Antirretrovirais continuam sendo o tratamento seguro e eficaz

Para a população em geral, o tratamento recomendado continua sendo o uso regular dos medicamentos antirretrovirais.

Quando tomados corretamente, eles reduzem a quantidade de HIV no sangue até níveis indetectáveis, protegem o sistema imunológico e impedem a transmissão sexual do vírus.

Pessoas que vivem com HIV não devem interromper a medicação por conta própria. A suspensão realizada nos casos apresentados ocorreu em ambiente de pesquisa, com exames frequentes e acompanhamento de equipes especializadas.

Com informações de Agência Brasil

 

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